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Na Política o Menos Desonesto é o Mais Honesto

A política brasileira transformou-se em uma espécie de gincana às avessas, onde o troféu de "paladino da moralidade" é entregue não ao mais íntegro, mas àquele que possui o prontuário menos volumoso. No atual cenário, o título de "honesto" virou um conceito meramente estatístico: é apenas quem ainda não teve suas conversas no Telegram expostas ou seus boletos de chocolate quitados com dinheiro vivo. Desde que a "Vaza Jato" escancarou que até os xerifes da lei jogavam o jogo com as cartas marcadas, instalou-se uma espécie de amnésia coletiva conveniente. Se os guardiões da justiça operavam no "sub-reptício", os políticos sentiram-se autorizados a transformar o desvio de dinheiro público em uma modalidade de gestão aceitável.

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Milton Giancoli

5/14/20263 min read

Na Política o Menos Desonesto é o Mais Honesto

Milton Giancoli

A política brasileira transformou-se em uma espécie de gincana às avessas, onde o troféu de "paladino da moralidade" é entregue não ao mais íntegro, mas àquele que possui o prontuário menos volumoso. No atual cenário, o título de "honesto" virou um conceito meramente estatístico: é apenas quem ainda não teve suas conversas no Telegram expostas ou seus boletos de chocolate quitados com dinheiro vivo. Desde que a "Vaza Jato" escancarou que até os xerifes da lei jogavam o jogo com as cartas marcadas, instalou-se uma espécie de amnésia coletiva conveniente. Se os guardiões da justiça operavam no "sub-reptício", os políticos sentiram-se autorizados a transformar o desvio de dinheiro público em uma modalidade de gestão aceitável. A transição entre o vazamento das mensagens de Curitiba e as denúncias contra Flávio Bolsonaro no caso das "rachadinhas" — reveladas com o auxílio cirúrgico do Intercept Brasil — mostra que o método é a única coisa que muda; o apetite pelo bolso do contribuinte permanece intocado.

O que assistimos hoje é a institucionalização do cinismo. A classe política não se esforça mais para negar o erro, mas para normalizá-lo, como se o desvio de salários de assessores ou a engenharia criativa com imobiliárias fossem apenas "erros administrativos" ou "perseguição política". O eleitor, esse eterno personagem de comédia trágica, assiste a tudo com um sorriso amarelo, achando que está ganhando quando o seu "corrupto de estimação" é flagrado com menos notas na meia do que o adversário. "Pelo menos o meu só desviou para pagar o plano de saúde da família", pensa o cidadão, enquanto paga 40% de imposto em cima do arroz para financiar o próximo "investimento" em dinheiro espécie de algum gabinete. É a síndrome de Estocolmo aplicada à urna: o brasileiro médio defende o seu carrasco com a unha e dentes, sob a ilusão de que o "menos desonesto" é, por milagre lógico, um santo.

Se na cúpula do poder em Brasília as cifras são astronômicas e as desculpas são refinadas por advogados de dez mil reais a hora, o efeito cascata nas pequenas cidades do interior é devastador. No "Brasil profundo", a normalização do malfeito ganha contornos de folclore. O prefeito que desvia a verba da merenda ou o vereador que emprega toda a árvore genealógica no gabinete não são vistos como criminosos, mas como "espertos". Lá, onde o fiscal é o vizinho e a justiça costuma dormir sestas prolongadas, a moralidade pública foi substituída pelo clientelismo mais tacanho. O desvio moral que nasce nos palácios da capital se replica nos pequenos municípios como um vírus, convencendo a população de que a política é, por natureza, um balcão de negócios escusos. No final das contas, o eleitor enganado continua sendo o grande patrocinador desse espetáculo, aplaudindo o "menos pior" enquanto o seu próprio futuro é fatiado e servido em jantares de luxo pagos com o suor do seu trabalho.

Para fechar esse raciocínio com a precisão de um bisturi, não podemos ignorar o renascimento triunfal da "esquerda vermelha", que agora desfila com uma superioridade moral de dar inveja a santos de barro. Após anos mergulhados em escândalos que quase afundaram o país, esses setores aproveitam a lama alheia para tentar lavar a própria alma, como se a desonestidade da direita servisse de salvo-conduto para o passado. É um espetáculo de hipocrisia onde quem ontem dividia o pão da corrupção, hoje se sente no direito de apontar o dedo e cobrar pureza, ignorando que o eleitor, cansado de ser o bobo da corte, sabe muito bem que o cinismo não tem cor partidária. Enquanto um lado se esconde atrás de "perseguições" e o outro grita "honestidade" com a boca suja de história, o cidadão comum segue financiando esse teatro de sombras, onde a única moral que sobra é a de que, no Brasil, o erro do adversário é sempre a desculpa perfeita para o próprio pecado.