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A OBSESSÃO PELA REELEIÇÃO. PREFEITURA OU PALANQUE?
Em meio ao caos de um temporal que evidencia o abandono da cidade, o prefeito e sua equipe investem pesado na criação de uma realidade paralela. O dinheiro público, que deveria ir para obras e auxílio à população, financia superproduções para as redes sociais. Com equipamentos profissionais e fundos falsos, transformam o desastre em um cenário de mentiras para o TikTok
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Milton Giancoli
9/17/20263 min read
Como a obsessão pela reeleição torra o dinheiro público em redes sociais
Milton Giancoli




A Emenda Constitucional nº 16, promulgada em 1997 sob a presidência de Fernando Henrique Cardoso, foi vendida ao país sob o manto da maturidade institucional. O argumento oficial parecia razoável: consolidar o Plano Real e permitir que políticas públicas de longo prazo não fossem truncadas pela alternância repentina de poder.
No entanto, o parto dessa mudança já nasceu maculado por denúncias de compra de votos no Congresso Nacional, revelando de saída o pecado original do mecanismo. O que prometia ser estabilidade transformou-se no instrumento definitivo de autodestruição republicana: a reeleição não amadureceu os mandatos; apodreceu as intenções.
O governante que se senta na cadeira com a perspectiva de um segundo mandato quase nunca governa para o futuro. Governa para o pleito seguinte. O plano de governo registrado em cartório vira peça de ficção e vai direto para o fundo da gaveta, substituído por um cálculo eleitoreiro permanente.
Nas cidades do interior, esse fenômeno ganha contornos dramáticos e escancarados. Em municípios como Ibiúna, a prefeitura deixa de ser o centro administrativo das demandas da comunidade e converte-se em um imenso palanque montado no primeiro dia útil de mandato. As decisões deixam de responder às dores reais da população — a saúde básica que não funciona, as estradas de terra abandonadas, o saneamento inexistente nos bairros rurais — para priorizar obras cosméticas de fim de mandato, cargos distribuídos para amarrar alianças e o uso descarado da máquina pública.
O gestor passa quatro anos com a caneta na mão calculando o impacto de cada vírgula na própria continuidade. A esperança do cidadão, que confiou em um projeto de renovação, é sequestrada pela obsessão da permanência. Quando a ambição de se perpetuar atropela a coragem de transformar, quem perde é a cidade, refém de um ciclo vicioso onde o mandato nunca termina e o governo de fato nunca começa.
Agora tem uma moda nova e cara: a política do TikTok e das redes sociais.
O dinheiro suado dos nossos impostos, que devia ser aplicado em área públicas essenciais, vai para equipes de filmagem, anúncios na internet e vídeos cheios de efeitos visuais. É um mundo de mentira, pago a peso de ouro com os cofres públicos. Na tela do celular, a cidade parece um paraíso feito para viralizar; na vida real de quem acorda cedo para trabalhar, a realidade é o abandono.
A máquina pública trabalha dia e noite para vender uma ilusão digital e garantir o voto do eleitor desatento. Quando a vaidade da reeleição e os vídeos bonitos da internet valem mais do que o respeito ao povo, o município empaca. Quem paga a conta dessa festa de aparências, infelizmente, é sempre o cidadão que carrega a cidade nas costas.
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